Tô Bão !
Desde pequeno escutei uma lenda automobilística: "Folga em direção de Jeep não tem jeito...". E essa é uma lenda que tenho que dar a mão à palmatória e reconhecer que é verdadeira. É claro que a folga a que estou referindo é uma pequena folga, e não um relaxamento de tudo entre o volante e o pneu. Normalmente apelam para os ditos populares, para justificar o completo esculachamento e esculhambamento com o carro, colocando no projeto, e até no próprio carro, a culpa da falta de manutenção. E sempre escutei também o complemento dessa lenda: "...mas quando se roda na terra nem dá para perceber. Some tudo !", o que continua sendo verdade, pois o piso irregular de uma estrada de terra não deixa a gente perceber as folgas...
É que esse problema na direção do Jeep, e não se aplica à Rural, é de projeto. Não estou afirmando, e quem sou eu para isso, que o Jeep tem erro de projeto na direção. O foco e a intenção inicial do Jeep foi de ir à guerra, e depois foi de rodar no campo, em terrenos e estradas ruins. E ali é que não dá para perceber folga alguma, pois com o piso irregular, ele puxa a direção para todos os lados, desaparecendo com a sensação da folga. Por ter essa intenção de uso, elevaram as barras da direção dele, tirando elas da frente de qualquer obstáculo, deixando uma cacetada maior somente para o eixo dianteiro, que é muito mais forte que as barrinhas da direção. O problema causador da folga foi a solução aplicada no projeto, do braço do pino de centro e da ponteira de centro. Todo o conjunto das barras de direção ficou instável, tendendo a torcer onde as articulações das ponteiras o permite fazer isso, principalmente nas articulações da ponteira de centro, e da ponteira que nela trabalha.
A instabilidade do conjunto das barras dianteiras também aparece quando a suspensão trabalha, o que faz alterar o ângulo de convergência das rodas dianteiras com o aumento e redução da distância entre o eixo e o chassis. Ocorre também uma pequena mobilidade independente em cada roda dianteira, que "abana" conforme o terreno manda, também alterando o ângulo de convergência das rodas dianteiras. Na prática seria dizer que o Jeep quando anda, desalinha sozinho as rodas dianteiras, colocando em si mesmo um ângulo de convergência diferente a cada momento. E quando as molas dianteiras vão "arriando" com o uso, a direção também vai desalinhando, tendendo a ficar divergente. Fica mais fácil visualizar o que estou dizendo olhando uma animação logo abaixo, ao invés de ficar abstraindo essas situações. Essa animação foi conseguida com o carro no cavalete, alterando o esterço somente da roda esquerda. Essa situação simula exatamente um esforço aplicado pelo piso somente em uma roda, mas com ela é mais fácil extrapolar para as situações de virar o carro para um lado e outro, e também da suspensão trabalhando. Nela as barras se rotacionam, o que é fácil ver pelo parafuso de fixação do amortecedor de direção na barra da direita. Vale observar que o pino de centro e a roda direita estão rigorosamente no mesmo lugar durante essa experiência, e que todas as ponteiras estão em boa condição, sem folga nenhuma.
Com o que foi colocado acima, acho que deu para visualizar o problema, e saber onde é que mora a tal folga impossível de se tirar na direção do Jeep. Então vamos à solução, que é a barra direta. Essa solução não foi criada nem por mim, e nem pelos "antigos" que usavam o Jeep para reboque, e tinham um grande problema de convergência das rodas dianteiras quando estavam carregados com um carro dependurado em seu guincho na traseira. A frente levantava, aumentando a distância entre o chassis e o eixo, o que fazia "juntar" as barrinhas da direção, o que provocava um zarolhismo convergente no valente carrinho. Naquela época, os antigos não desistiram do Jeep para o serviço de reboque, e sim copiaram a Jeep Station Wagon, que tem a direção idêntica à Rural e Pick Up Willys, já com a barra direta de fábrica. Então o mérito da invenção da barra direta é da própria fábrica, e a sua aplicação no Jeep é dos pioneiros donos de Jeep reboque. Mas ponderemos, e é fácil de concordar que reboque não é o foco inicial do Jeep. Ele é que nasceu forte, com tomada de força e reduzida, o que fazia dele um carro mais que adequado para a aplicação em reboque. Então essa alteração no seu projeto é louvável, ou seja, não acho que é pecado algum a adaptação de barra direta no Jeep.
E nós, donos de Jeeps paisanos que não rodam exclusivamente na terra como um Jeep fazendeiro, o que fazer ? Nós que somos obrigados a rodar em asfalto sempre para chegar à terra, ou no caso de um destino mais longínquo somos obrigados a viajar nas rodovias ? Ao menos eu, aderi à barra direta. Ela deixa fixo o ângulo de convergência, o que me dá uma maior vida útil dos pneus dianteiros. Já ouviram outra lenda automotiva que "Jeep gasta mais pneu na frente que atrás"? Outra verdade, pois já disse que a direção desalinha a cada instante com o trabalho da suspensão, e como nossos carros hoje rodam bastante em asfalto, isso manda os pneus dianteiros mais cedo para o beleléu.
Bom ! Então vamos colocar a barra direta ! E a ótima notícia é que essa adaptação é completamente reversível, e não necessita intervenção alguma além da troca das barras. A barra a ser usada é a da Rural ou da Pick Up Willys. Eu comprei uma barra de direção de uma Rural, uma barra original antiga, pois estas são bem mais fortes que as novas. A qualidade das peças antigas são muito maior que a das novas, sempre.
Já ví muitos tipos de adaptação da barra direta, e conversando com o Paulo Porto que me mostrou e me ensinou mais duas. São adaptações que mudam a tampa do rolamento da cúpula por um braço, como na Rural. Só que é adaptação grosseira, e fica um treim danado para bambear, folgando os rolamentos da cúpula e correndo até risco de soltar o tal braço adaptado, o que deixaria o carro sem destino. Em outra solução, é soldado outro olhal junto ao olhal original da cúpula. Essa última é uma ótima solução, pois tira fora a ponteira de centro, que tem mania de "rodar" enquanto trabalha e é a principal causadora da folga do Jeep. Ela trabalha rebolando, na verdade. Só que essa alternativa leva solda em mais um olhal na cúpula, e com solda eu não gostei. Resumindo, todas as outras alternativas que vi levam solda, e eu prefiro não colocar solda alguma em peças de direção.
A melhor forma dessa adaptação consiste em trocar de lugar as ponteiras, principalmente a ponteira de centro, que vai passar a trabalhar junto à roda direita. Neste lugar ela ainda vai dar uma leve rotacionada quando trabalha, ficando uma pequena, muito pequena mesmo, folguinha. A barrinha original esquerda, vai ser dispensada, sendo melhor guardar ela guardadinha para na hora que der vontade de dirigir o carro com a direção do jeitinho que veio de fábrica. A parte melindrosa dessa adaptação é a redução de comprimento da barra da Rural, que tem bitola maior que o Jeep. Já ví barras sendo cortadas, e remendadas novamente com solda. Até dá certo esse expediente, principalmente quando se coloca um tarugo por dentro da barra para reforçar a solda. Uns dois furos podem ser feitos de cada lado da emenda, ponteando-se depois o tarugo através deles. Isso aumenta ainda mais a resistência da solda. Mas eu prefiro a solução mais clássica, e nem mais difícil por isso. Corta-se a barra do lado da rosca direita, mantendo a rosca esquerda quietinha. Faceia-se no torno, rosqueia-se com um macho, sangra-se com uma segueta o rasgo de aperto da ponteira. Rápido e fácil ! E ficam inalteradas as propriedades mecânicas da barra sem a solda, como ductilidade e resiliência. A grosso modo é como dizer que a barra sem solda agüentará mais pancada, e vai envergar sem quebrar. Algum problema aparece somente se não possuir o macho adequado, cuja medida é de 11/16" NF. Mas isso é pouco problema também, pois torno faz a rosca que quiser, interna ou externa. No caso de não ter o macho, o que facilitaria a operação, é muito fácil de abrir a rosca no torno, e qualquer um que se diga torneiro tem a obrigação de fazer isso bem feito e rápido.
Depois disso é só montar tudo e está pronta a adaptação. Já ví alguma interferência entre a barra que estamos instalando, the ponteiras e as abraçadeiras dos feixes de mola. No Edwaldo mesmo deu essa interferência. O lado direito é mais problemático, e a abraçadeira interfere mais por causa da ponteira da barra que liga ao braço do pino de centro. Não é em todo carro que acontece isso, pois depende dos jumelos usados, do arqueamento e do fabricante das molas. Normalmente uma marretadinha resolve, tirando a abraçadeira da frente, ou amassando ela contra o feixe de molas. Também já vi a abraçadeira ser cortada, o que não é tão pecado assim, mas se puder deixar ela por lá acho mais conveniente, mantendo o carro mais original. Somente num caso de absoluta falta sorte é que precisará mexer no feixe para corrigir algum problema.
Na adaptação da barra direta no Edwaldo, dei a grande sorte de uma interferência entre a ponteira e a abraçadeira. Tive que cortar a abraçadeira, mas não eliminei ela toda, deixando o que pude dela no carro. É que as molas do Edwaldo, e da Faustina também, tem fitas plásticas entre as lâminas, para eliminar ruídos e proporcionar maior suavidade no seu trabalho. Neste caso, os pedaços da abraçadeira vão continuar ajudando a fixar as fitas plásticas. Depois de tirada a abraçadeira da frente, ainda ficou interferência entre o feixe de molas direito e a ponteira que vinha da barra ligada ao pino de centro. Além disso, a barra direta ficava batendo na tampa do diferencial dianteiro, quando a direção estava totalmente esterçada para qualquer dos lados. A solução me foi ensinada pelo Paulo Porto, já acostumado a fazer esse tipo de adaptação há muito. Prensamos a ponteira de centro, afastando a barra direta da tampa do diferencial, e ainda "levantamos" ela um pouco. A barra não mais bateu na tampa do diferencial, mas mesmo com essa "levantada", a ponteira da barra do pino de centro ainda batia no feixe de molas. Ai não sobrou outro recurso sem ser o de abrir o batente da direção, limitando o esterçamento para a esquerda em mais 5 mm. Para a direta ficou tudo como estava. Perdi um pouco de esterçamento para a direita, mas talvez quando o Edwaldo arreie um pouco os feixes que estão muito arqueados, eu possa voltar o batente para onde estava, permitindo que ele vire tudo que é possível sem bater pneu nas longarinas... É assim mesmo, o treim já chama adaptação num é à toa.
É claro que teremos que alinhar a direção tão logo terminemos. No Jeep, e na Rural também, só temos regulagem de convergência. Com a barra direta no Jeep será até mais fácil alinhar a direção. A regulagem da convergência é fácil com a barra direta. Ela facilita também o alinhamento do setor de direção, pois é só ir rodando a barrinha que liga o braço do pino de centro à ponteira de centro até o volante ficar reto. Chamamos a ponteira de centro dessa forma pelo hábito. Ela não é de centro mais, pois está montada no lado direito agora. Eu coloquei o volante do Edwaldo no lugar usando uma marquinha na estria vareta. Essa marquinha, que é a falta de um dentinho, quando para frente indica que o setor está alinhado, ou seja, o eixo Pittiman está perpendicular à rosca do sem-fim. É essa a posição desejável para o trabalho do setor, e é assim que ele vai trabalhar para o carro andar reto. Fica fácil de fazer isso com o arranjo que agora temos nas barras.
Com isso pronto, terei menor desgaste dos pneus e dos componentes da direção. Essa é uma adaptação que compensa, e quase só tem de desvantagem o fato de não ser original do carro. As vantagens, já ditas, são a de facilitar o alinhamento da direção, manter esse alinhamento nas diversas situações, e terminar com a folguinha que o Jeep tem de nascença na direção. Essa folguinha não termina toda, pois a ponteira de centro ainda está montada lá, e ainda permite um movimento, mesmo que menor agora, do conjunto de barras da direção. A direção também fica mais macia, e isso já era esperado. Com a convergência da direção travada, é claro que a direção ficará mais macia, pois o alinhamento da direção estará sempre certinho. Mas a principal vantagem dessa adaptação, para quem é igual à mim, exigente e chato, é que ela é completamente reversível. Com meia horinha de divertimento puro, o carro volta ao que foi feito na fábrica.
Resumindo e repetindo as vantagens e desvantagens: Terei a direção sempre alinhada, menor desgaste dos pneus dianteiros e maior facilidade no serviço de alinhamento da direção. Em contra partida o carro não tem mais esse item original, perde-se esterço da direção para a esquerda, tem que cortar a abraçadeira do feixe de molas e realinhar a ponteira de centro na prensa. Dibitação é dibitação, quero dizer, adaptação é adaptação, num tem jeito !
Ainda sobra um muxibentinho na direção. É a tal folga vitalícia na direção do Jeep, que diminuiu pela modificação da posição da ponteira de centro. Mas ela continua lá, e alguma folguinha ainda aparece. Novamente coloquei uma animação, lá em baixo, para melhor visualização. Com a solda do segundo olhal na roda direita, a ponteira de centro iria embora, e o restinho de folga com ela. Só que solda ali não quero não ! Acho muito perigoso. Ia até deixar como estava, e foi ai que o Paulo Porto entrou na história novamente, ajudando como sempre. Fui à oficina dele, mostrar o novo suporte do amortecedor de direção e a barra direta do Edwaldo, fazendo a manutenção da boa conversa fiada em oficina. Nessa, mostrei à ele o pouco de folga que sobrou na direção, e ele mandou eu balançar o volante, enquanto abaixou na frente do Jeep. De repente o muxibento sumiu completamente, e terminou-se as folgas da direção do Edwaldo. Qual a mágica. O Paulo segurou a ponteira de centro com a mão, o que não deixou ela rotacionar o conjunto das barras. E sem o rebolado da ponteira de centro a folga vitalíca da direção do Jeep morreu ! Ele me chamou até a frente o Jeep dele, e me mostrou uma "abraçadeira" que ele tinha feito para segurar a ponteira de centro. Essa abraçadeira permite a ponteira girar quando se vira a direção, mas fica impedida de rotacionar, rebolando e deixando folgas na direção. O que o Paulo me ensinou na verdade é que a força componente que faz a ponteira de centro rebolar é muito pequena, podendo ser neutralizada até com a mão. Então uma abraçadeira, sem grandes dimensões seguraria o rebolado, e extinguiria a folga da direção. Ele até disse enquanto me mostrava o artefato: "Faz isso lá, pois você é mais caprichoso, e tem capacidade de fazer isso melhor que eu". Realmente o meu acabamento na confecção de uma peça é melhor que a do Paulo Porto. Mas não concordei com ele dele não saber fazer como eu. É que sou bem mais chato e gasto mais tempo que ele. O Paulo não pode perder tanto tempo como eu, pois ganha o pão arrumando os carros. Para mim isso é somente diversão !
E foi assim que terminei com duas lendas, ou melhor, duas verdades sobre o Jeep. Acabei com o consumo excessivo de pneus dianteiros, e, quase que inacreditavelmente, desapareci com a folga na direção dele. Ao menos do Edwaldo...
Abraço a todos,
21/06/2007
Walter Júnior - B. Hte. -
waltergjunior@waltergjunior.com
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